- WinBoat integra aplicativos Windows ao desktop Linux usando Docker e FreeRDP, oferecendo uma experiência mais fluida que VMs tradicionais.
- A instalação exige Docker, Docker Compose e FreeRDP atualizados, além de virtualização ativada na BIOS/UEFI e configuração simples no Ubuntu.
- O projeto permite rodar Office, apps da Adobe e ferramentas corporativas com bom desempenho, embora ainda sem GPU passthrough para games pesados.
- Recursos como USB passthrough experimental e suporte a Podman ampliam o potencial do WinBoat como solução open source para usar Windows no Linux.

Se você usa Linux no dia a dia mas ainda depende de alguns programas exclusivos do Windows – como Microsoft Office, apps da Adobe ou aquele software corporativo que só existe para Windows -, provavelmente já se deparou com um dilema: ficar preso ao dual boot, lutar com configurações complicadas de Wine ou manter uma máquina virtual pesada aberta o tempo todo. Nos últimos anos surgiram soluções mais inteligentes e integradas, e uma das mais interessantes é o WinBoat, que vem chamando atenção justamente por facilitar essa ponte entre os dois mundos.
O foco do WinBoat é permitir que você rode o Windows de forma leve, automatizada e bastante integrada ao desktop Linux, aproveitando tecnologias conhecidas como Docker e FreeRDP, mas escondendo a parte complicada atrás de uma interface gráfica bem amigável. A ideia é que os aplicativos Windows apareçam lado a lado com seus programas nativos do KDE, GNOME ou XFCE, quase como se tivessem versão para Linux. Ao longo deste artigo você vai ver em detalhe o que é o WinBoat, como ele funciona, quais são seus pré-requisitos e, claro, um passo a passo de como instalar o WinBoat em Ubuntu, além de comparações com Wine, WinApps e soluções proprietárias.
O que é o WinBoat e qual é a proposta do projeto
O WinBoat é um projeto open source que automatiza a instalação e o uso de uma máquina Windows dentro do Linux, utilizando contêineres Docker e o protocolo de área de trabalho remota RDP para exibir os aplicativos diretamente no seu ambiente gráfico. Em vez de abrir uma janela de “máquina virtualzão” tradicional, o WinBoat cria uma experiência muito mais integrada: você pode abrir o Bloco de Notas, o Explorador de Arquivos, Word, Excel, Affinity Photo ou outros programas como se fossem janelas normais do seu sistema Linux.
Por baixo do capô, o WinBoat tira proveito de imagens de Windows especialmente ajustadas para rodar em contêiner, baseadas no projeto Dockur, que oferece ISOs de Windows 10 e 11 “debloatadas” (sem aquele monte de software pré-instalado que ninguém usa). O WinBoat orquestra tudo com Docker Compose, simplificando a criação e o gerenciamento do ambiente Windows com poucos cliques, sem que você precise editar arquivos YAML, mexer em scripts ou decorar comandos complexos.
Um dos diferenciais mais marcantes do WinBoat é a forma como ele integra os aplicativos Windows no desktop Linux. Em vez de você abrir sempre o desktop inteiro do Windows, o programa mapeia os apps instalados e mostra uma lista dentro da própria interface do WinBoat. A partir dali, basta clicar e o programa aparece como uma janela normal no seu KDE, GNOME, XFCE e afins, com direito a compartilhamento de área de transferência e acesso aos arquivos do seu diretório pessoal.
Apesar de todo esse nível de integração, o WinBoat ainda está em estágio Alpha em muitos cenários, o que significa que alguns recursos são experimentais ou ainda não estão polidos. Mesmo assim, ele já se mostra extremamente promissor, especialmente para quem precisa de um ambiente Windows bem configurado para tarefas de escritório, ferramentas corporativas ou softwares de nicho que simplesmente não têm alternativa viável no Linux.
Onde o WinBoat se encaixa no dia a dia de quem usa Linux
Quando alguém migra para Linux, o ideal é seguir uma espécie de “escada” de soluções antes de recorrer a uma VM Windows. Primeiro você tenta apps nativos (como LibreOffice, GIMP, Kdenlive, etc.), depois procura alternativas de código aberto, em seguida testa camadas de compatibilidade como Wine e Proton e, só quando nada disso resolve, parte para a virtualização tradicional ou até dual boot. O WinBoat atua justamente nessa fase de virtualização, mas com uma abordagem bem mais refinada do que um VirtualBox da vida.
No modelo clássico de máquina virtual, você abre uma janela contendo o desktop completo do Windows, com pouco ou nenhum nível de integração real com o host. Arquivos são trocados via pasta compartilhada meio engessada, atalhos de aplicativos não aparecem no menu do sistema Linux e, no fim das contas, a sensação é de estar usando dois computadores ao mesmo tempo. É funcional, mas longe de ser confortável para o dia a dia.
Com o WinBoat, o Windows passa a ser quase um “serviço de aplicações” rodando em segundo plano, e não um sistema isolado que você só acessa por uma janelona de VM. O papel dele fica bem claro: atender aos casos em que nada nativo funciona bem e ainda assim entregar uma experiência mais integrada, fluida e transparente para o usuário comum, que às vezes só quer abrir um .docx no Word da maneira mais simples possível.
Esse posicionamento torna o WinBoat especialmente interessante para uso corporativo ou para criadores de conteúdo que estão presos a ferramentas como Adobe Acrobat, alguns apps da Creative Cloud, clientes específicos de chat ou sistemas internos de empresas. Você não precisa abandonar o Linux para trabalhar com esses programas; basta lançar mão do WinBoat quando realmente for necessário. Se optar por abrir PDFs no navegador em vez do Acrobat, pode desativar o leitor embutido — veja como desativar o leitor de PDF do Chrome.
Para gamers ou quem depende de GPU passthrough e anti-cheat a nível de kernel, a proposta atual do WinBoat não é substituir o Windows nativo. O próprio projeto deixa claro que jogos com anti-cheat invasivo não funcionam em ambientes virtualizados, e que ainda não existe aceleração de GPU integrada. Nesses cenários, Proton e Steam continuam sendo as melhores apostas.
WinBoat x WinApps, Wine, CrossOver e soluções proprietárias
Uma comparação inevitável é com o WinApps, projeto que também permite integrar aplicativos Windows ao desktop Linux, exibindo os programas quase como se fossem nativos. A grande diferença é que, com o WinApps, boa parte da configuração precisa ser feita à mão: editar arquivos de configuração, lidar com scripts, configurar RDP e assim por diante. Há até uma TUI básica e alguns comandos de terminal, mas falta um painel central que una tudo.
O WinBoat pega a ideia do WinApps e adiciona uma interface gráfica coesa e um fluxo de instalação extremamente automatizado. Em vez de você sair caçando opções e comandos, o próprio WinBoat verifica os pré-requisitos, ajuda a instalar o que falta, baixa a ISO oficial do Windows, ajusta a imagem e monta o contêiner com Docker Compose. Para o usuário comum, o ganho de usabilidade é enorme: quase tudo é guiado por assistentes claros, com direito a links “How?” ao lado de cada item de dependência.
Na comparação com Wine e CrossOver, o WinBoat aposta em uma estratégia diferente. Em vez de tentar “traduzir” chamadas de sistema do Windows diretamente para o Linux, ele roda um Windows completo, isolado em um contêiner. Isso abre caminho para rodar muitos programas que simplesmente não se entendem com Wine, incluindo algumas suítes corporativas, Adobe Acrobat, parte da Creative Cloud, Affinity Photo, Paint Tool SAI v1 e principalmente a suíte Office.
Outra vantagem sobre Wine/CrossOver é que você ganha um desktop Windows completo à disposição, caso precise instalar drivers de configuração via USB, rodar utilitários de firmware ou executar ferramentas administrativas específicas. Tudo isso acontece dentro do contêiner, sem mexer diretamente no sistema Linux, reduzindo riscos de bagunçar seu ambiente principal.
Quando o assunto são soluções proprietárias como Parallels no macOS, o WinBoat pode ser encarado como uma espécie de “resposta open source” para o mundo Linux. Ele mira na mesma ideia de abrir aplicativos Windows de forma suave, com ícones integrados ao menu do sistema, compartilhamento de área de trabalho e arquivos, mas sem custos de licença nem travas na plataforma.
Arquitetura técnica: Docker, FreeRDP e integração com o desktop
Do ponto de vista técnico, o WinBoat funciona como uma camada de orquestração em cima de ferramentas bem estabelecidas. Ele usa Docker para executar uma imagem de Windows preparada para contêiner, com ajuda de Docker Compose para descrever e iniciar todos os serviços necessários. Essa imagem vem “enxuta”, sem bloatware, o que ajuda tanto no desempenho quanto no consumo de espaço em disco.
Em vez de usar VNC, que é a escolha padrão em muitas soluções baseadas em contêiner, o WinBoat aposta no protocolo RDP (Remote Desktop Protocol), através do cliente open source FreeRDP. O RDP costuma oferecer melhor desempenho gráfico, menor latência e menos artefatos de compressão na tela, algo essencial para que as janelas Windows pareçam naturais no desktop Linux.
A integração visual acontece graças ao uso de sessões RDP individuais para cada aplicativo Windows. O WinBoat mapeia os programas instalados no sistema convidado e, ao clicar em um app na aba “Apps”, ele abre uma janela RDP diretamente para aquele processo, sem mostrar barras extras ou o desktop completo (a menos que você opte por isso). Dá a sensação de que o app “nasceu” no Linux, mesmo ele rodando dentro do contêiner.
O compartilhamento de arquivos é outro ponto importante na arquitetura do WinBoat. Normalmente, a pasta home do usuário Linux é montada dentro do Windows como um compartilhamento de rede, visível no Explorador de Arquivos com um nome do tipo “host.lan”. Assim, você consegue abrir documentos existentes no Linux diretamente a partir dos programas Windows e salvar de volta no mesmo lugar, sem malabarismos com pendrive virtual ou coisas do gênero.
Além disso, o WinBoat faz uso de módulos do kernel relacionados a iptables para gerenciar a rede da máquina virtual, garantindo que o contêiner Windows consiga comunicar-se corretamente com o host e com a internet. Tudo isso é checado na fase de pré-requisitos, para evitar que o usuário se depare com problemas inesperados depois da instalação.
Pré-requisitos para instalar WinBoat em Ubuntu
Antes de instalar o WinBoat no Ubuntu, é fundamental verificar se o hardware e o sistema atendem a alguns requisitos mínimos. Em termos de máquina, recomenda-se pelo menos 4 GB de RAM, 2 núcleos de CPU disponíveis e cerca de 32 GB de espaço livre em /var, embora quanto mais recursos você puder dedicar à VM, mais confortável será o uso.
Outro ponto crítico é o suporte a virtualização na BIOS/UEFI. Em processadores Intel você precisa do recurso VT-x ou VMX habilitado; em CPUs AMD, o equivalente é SVM ou AMD-V. Sem isso, o ambiente Windows simplesmente não vai subir de forma adequada, então vale a pena entrar na BIOS e conferir se essas opções estão ativas.
No lado do software, o trio básico é Docker, Docker Compose v2 e FreeRDP. O WinBoat depende do Docker para rodar o ambiente Windows em contêiner, do plugin de Docker Compose para orquestrar a pilha e do FreeRDP (de preferência a versão 3 em distribuições mais recentes) para cuidar da parte gráfica de conexão RDP entre Linux e Windows.
Também é necessário garantir que o seu usuário pertença ao grupo docker, o que evita ter que rodar tudo como root e simplifica bastante o uso no dia a dia. Após colocar o usuário nesse grupo com usermod -aG docker $USER, é preciso fazer logoff e login novamente para que a mudança tenha efeito.
Por fim, alguns módulos de rede e regras de firewall baseadas em iptables devem estar funcionando corretamente. O instalador do WinBoat costuma mostrar cada um dos itens de checagem com ícones indicando sucesso ou falha, e, ao lado de cada pré-requisito, há um link “How?” que leva a instruções detalhadas ou comandos simples para arrumar o que estiver faltando.
Instalando Docker e preparando o Ubuntu para o WinBoat
Em muitas instalações de Ubuntu, a primeira barreira para usar o WinBoat é ter uma versão adequada do Docker e do Docker Compose v2. Algumas versões do pacote docker.io dos repositórios oficiais podem estar defasadas, por isso uma abordagem comum é configurar o repositório oficial da Docker para garantir versões mais recentes.
Um passo inicial importante é remover pacotes que possam conflitar com o Docker Engine moderno. Isso inclui versões antigas de docker.io, docker-compose clássico, containerd ou até wrappers como podman-docker. O processo normalmente é feito com um laço simples que remove esses pacotes via apt-get.
Depois de limpar possíveis conflitos, você adiciona a chave GPG oficial da Docker e o repositório estável. Isso envolve criar o diretório /etc/apt/keyrings, baixar a chave com curl, ajustar as permissões e então declarar o novo repositório em /etc/apt/sources.list.d/docker.list, apontando para a release do Ubuntu em uso.
Com o repositório configurado, basta atualizar a lista de pacotes e instalar os componentes principais, como docker-ce, docker-ce-cli, containerd.io, o plugin docker-buildx e o docker-compose-plugin. Em seguida, é recomendável verificar o status do serviço com systemctl status docker, iniciá-lo manualmente se necessário e habilitar o start automático na inicialização.
Um teste simples para checar se o Docker está operando corretamente é executar o contêiner “hello-world”. Se a mensagem de boas-vindas aparecer, significa que a engine está ativa e consegue puxar imagens da internet. Nessa etapa também é comum adicionar o usuário ao grupo docker com usermod -aG docker $USER e, opcionalmente, ajustar permissões da pasta ~/.docker para evitar problemas de acesso.
Instalação do FreeRDP via Flatpak
Embora muitas distribuições tragam o FreeRDP em seus repositórios oficiais, em algumas versões do Ubuntu a edição disponível pode estar desatualizada para o que o WinBoat exige. Uma solução prática é usar o Flatpak para instalar uma versão mais nova do cliente FreeRDP, garantindo compatibilidade com os recursos mais recentes do protocolo.
Se o Flatpak ainda não estiver habilitado no sistema, o primeiro passo é instalar o pacote correspondente via apt e adicionar o repositório Flathub, que hospeda a maior parte dos aplicativos distribuídos em Flatpak. Em desktops como KDE Plasma ou GNOME, é possível ainda instalar os plugins que integram o Flatpak às lojas gráficas Discover e GNOME Software.
Com o Flathub configurado, basta procurar pelo pacote do FreeRDP no repositório, seja via terminal com flatpak install flathub com.freerdp.FreeRDP, seja pela própria loja gráfica da sua distribuição, certificando-se de selecionar a versão Flatpak, e não alguma outra build que possa aparecer na busca.
Uma vantagem de usar o FreeRDP como Flatpak é que você fica menos dependente da versão do sistema, recebendo atualizações diretas do Flathub e mantendo o cliente de RDP alinhado com o que o WinBoat precisa para funcionar da melhor maneira possível, sobretudo em recursos de renderização e codificação de vídeo.
Depois da instalação, o FreeRDP passa a estar disponível no sistema e o WinBoat consegue usá-lo para abrir as sessões de desktop e de aplicativos, sem que você precise configurar quase nada manualmente, desde que o binário esteja acessível no PATH ou reconhecido pelo aplicativo.
Baixando e instalando o pacote .deb do WinBoat no Ubuntu
Com Docker, Docker Compose e FreeRDP devidamente instalados, o próximo passo é obter o próprio WinBoat. Os desenvolvedores disponibilizam versões em vários formatos, incluindo .deb para distribuições baseadas em Debian/Ubuntu, além de outras opções como AppImage em determinados casos.
No Ubuntu, o caminho mais direto é baixar o arquivo .deb correspondente à versão mais recente do WinBoat, normalmente a partir do site oficial do projeto ou da página de releases no GitHub. Após o download, o pacote costuma ficar na pasta Downloads do seu usuário, pronto para ser instalado.
Você pode instalar o .deb de duas formas principais: abrindo-o diretamente com o gerenciador de pacotes gráfico (basta dar um duplo clique) ou usando o terminal. Pelo terminal, um comando comum é sudo apt install ./winboat-XXXX-amd64.deb, o que tem a vantagem de resolver automaticamente as dependências necessárias.
Em algumas instruções, também se utiliza o dpkg -i para instalar o arquivo .deb. Caso você opte por esse método e surjam erros de dependência, é só rodar sudo apt-get -f install em seguida para que o sistema tente corrigir os pacotes pendentes e completar a instalação.
Depois que o pacote é instalado com sucesso, o WinBoat passa a aparecer no menu de aplicativos do Ubuntu, geralmente na categoria correspondente a ferramentas de sistema ou utilidades. Em certas situações, pode ser recomendável reiniciar o computador, especialmente se você acabou de adicionar o usuário ao grupo docker ou fez alterações recentes em serviços de sistema.
Primeira execução e assistente de configuração do WinBoat
Ao lançar o WinBoat pela primeira vez, você será recebido por um assistente gráfico que guia toda a configuração inicial. Essa etapa começa com uma tela de boas-vindas e a apresentação dos termos de licença do projeto. Em seguida, o programa faz uma varredura para checar todos os pré-requisitos, exibindo cada item com um indicador de “OK” ou de problema.
Se algum componente estiver faltando – como Docker, Compose, FreeRDP ou suporte de virtualização – o WinBoat sinaliza o problema e oferece links de ajuda, normalmente mostrando comandos simples que você pode copiar e colar no terminal para resolver a pendência. Essa abordagem é especialmente amigável para quem não tem tanta intimidade com linha de comando.
Com todos os requisitos marcados em verde, o próximo passo é escolher onde a máquina Windows será armazenada. O WinBoat deixa você selecionar um diretório de instalação, muitas vezes uma subpasta dentro do seu diretório pessoal, garantindo que o espaço reservado para a VM fique sob seu controle.
Logo depois vem a escolha da versão do Windows que será instalada. É possível selecionar Windows 10 ou 11, em edições como Pro, Enterprise ou LTSC, dependendo do que o projeto oferece naquele momento. Não é necessário informar a chave de produto na instalação inicial, já que o sistema é baixado na forma de ISO oficial de avaliação, similar ao download direto dos servidores da Microsoft.
O assistente também solicita que você defina um nome de usuário e uma senha para a conta que será criada no Windows, além de ajustar recursos como número de núcleos de CPU, quantidade de RAM e tamanho do disco virtual destinado à VM. A recomendação é não comprometer mais de 50% dos recursos totais do host, para evitar que o Ubuntu fique lento enquanto o Windows estiver rodando.
Nessa fase da configuração, é possível ainda habilitar o compartilhamento da pasta home com o Windows. Isso faz com que, dentro do Explorador de Arquivos, apareça um compartilhamento de rede apontando para o diretório pessoal do usuário Linux, normalmente identificado como “host.lan”. É um recurso extremamente prático, mas que exige cuidado por questões de segurança.
Instalação automática do Windows via WinBoat
Depois de definir todas as opções no assistente, o WinBoat mostra um resumo da configuração e inicia o processo de criação da máquina Windows. Essa etapa é quase totalmente automatizada: o programa baixa a imagem ISO apropriada diretamente dos servidores da Microsoft, aplica ajustes para remover componentes desnecessários e prepara o ambiente de contêiner.
Durante a instalação, o WinBoat também cria o usuário definido, configura rede, mapeia o compartilhamento de arquivos e ajusta as integrações necessárias. Dependendo da velocidade da sua conexão e do desempenho do hardware, essa fase pode levar desde alguns minutos até perto de uma hora, especialmente em máquinas mais modestas ou com internet lenta; se houver dificuldades no download via navegador, uma opção é restaurar a configuração do Firefox.
Um detalhe interessante é que o WinBoat oferece um link para você acompanhar a instalação em tempo real. Ao clicar, normalmente é aberto um navegador que mostra a interface de instalação do Windows via RDP ou equivalente, permitindo ver exatamente o que está acontecendo dentro da VM mesmo que você não precise interagir manualmente com ela.
Ao finalizar o processo, o painel principal do WinBoat passa a exibir informações sobre o consumo de recursos da VM, como uso de CPU, memória e disco, além de botões para iniciar, pausar ou desligar o ambiente Windows. É nessa hora também que a aba de aplicativos começa a ser povoada com os executáveis detectados no sistema convidado.
Nesse ponto, a máquina já está pronta para uso. A partir daí, o uso cotidiano passa a girar em torno da aba “Apps”, da opção “Windows Desktop” e dos ajustes finos disponibilizados em “Configuration” ou seções equivalentes da interface do WinBoat.
Usando o Windows no Linux: desktop completo e apps integrados
Com a VM Windows em funcionamento, o WinBoat oferece duas formas principais de acesso. A primeira é o modo “Windows Desktop”, em que o desktop inteiro do Windows é aberto dentro de uma janela no Linux. A segunda é o modo baseado em apps individuais, em que cada programa é aberto como uma janela separada no seu ambiente gráfico Linux.
Ao escolher o desktop completo, você tem uma experiência mais próxima de uma máquina virtual tradicional, com a área de trabalho, barra de tarefas e todas as janelas dentro da mesma sessão. Esse modo costuma ser mais interessante para tarefas de configuração, instalação de novos programas, ajustes de idioma e algumas aplicações mais pesadas que se comportam melhor em tela cheia.
Já a aba “Apps” é onde o WinBoat realmente brilha em termos de integração. Ela lista os aplicativos detectados no Windows (como Bloco de Notas, Explorador de Arquivos, Prompt de Comando, Office, navegadores, entre outros), e ao clicar em qualquer um deles, o WinBoat abre uma sessão RDP específica para aquele programa, que aparece como uma janela normal no seu desktop Linux.
Na prática, isso significa que você pode ter, por exemplo, o Microsoft Word aberto lado a lado com o LibreOffice Writer, ou o Affinity Photo convivendo com o GIMP, todos como janelas nativas do seu ambiente gráfico. A área de transferência costuma funcionar de forma transparente, permitindo copiar e colar texto ou arquivos entre o Windows e o Linux sem complicações.
O compartilhamento de arquivos via “host.lan” facilita muito o fluxo de trabalho com documentos e projetos. Você pode salvar um arquivo diretamente no diretório pessoal do Linux a partir de um aplicativo Windows e, logo em seguida, abri-lo em um programa nativo, sem precisar exportar manualmente nem usar sincronizações externas.
Para quem só precisa esporadicamente de um app corporativo ou de uma ferramenta específica do Windows, esse modelo de uso por aplicativo faz com que o WinBoat seja percebido quase como uma extensão do próprio Linux, sem a sensação de estar “mudando de sistema” toda vez que precisa trabalhar com um programa diferente.
Desempenho, limitações atuais e cenários de uso ideais
Apesar da boa integração, é importante ter em mente que o WinBoat roda um Windows completo em ambiente virtualizado, o que inevitavelmente traz algum impacto de desempenho em relação a uma instalação nativa. Ainda assim, testes mostram que, para a maioria das tarefas de escritório e produtividade, o desempenho é mais que suficiente.
Em benchmarks como Geekbench, a perda em single-core tende a ser relativamente pequena, algo em torno de menos de 10% em certos cenários, enquanto o multi-core pode sofrer uma queda mais acentuada, especialmente se você limitar o número de núcleos alocados à VM. Ainda assim, para navegação web, edição de documentos e tarefas leves, o sistema se mantém responsivo.
Aplicativos simples, como Bloco de Notas, WinSCP e ferramentas de linha de comando, rodam de forma bastante suave. Já programas mais pesados, como Affinity Photo ou lojas como Epic Games Store, podem apresentar atrasos perceptíveis na interface, principalmente por conta da ausência de aceleração de GPU e da sobrecarga gráfica na renderização via RDP.
O grande calcanhar de Aquiles do WinBoat hoje é justamente a falta de GPU passthrough funcional integrado. Embora existam iniciativas como drivers de vGPU e projetos experimentais de aceleração OpenGL/DirectX para ambientes virtualizados, muitos ainda estão imaturos, instáveis ou focados em hipervisores diferentes do que o WinBoat utiliza (como QEMU/KVM), exigindo esforço de portabilidade.
Jogos com anti-cheat em nível de kernel permanecem fora de cogitação nesse tipo de ambiente. Esses mecanismos costumam bloquear explicitamente a execução em máquinas virtuais, o que inviabiliza o uso do WinBoat como plataforma principal para games competitivos. Para esse público, o caminho continua sendo rodar o Windows nativamente ou apostar em Proton/Steam quando possível.
Apesar dessas limitações, para quem precisa de Office, Acrobat, Outlook, alguns apps da Adobe ou ferramentas corporativas em geral, o WinBoat já se mostra bastante maduro para uso no dia a dia, desde que se tenha clareza de que ainda se trata de um projeto em evolução (frequentemente descrito como Alpha) e que não é recomendado como solução crítica sem backups e planejamento.
USB passthrough, Podman e outros recursos avançados
Um recurso que vem chamando a atenção nas versões mais recentes do WinBoat é o suporte experimental a USB passthrough. A partir da versão 0.8.0, é possível encaminhar dispositivos USB diretamente para o ambiente Windows, o que permite rodar softwares de configuração de periféricos, como teclados, mouses avançados, headsets e outros equipamentos que dependam de utilitários específicos para Windows.
Na prática, isso significa que se o seu dispositivo se conecta via USB, há uma boa chance de você conseguir gerenciá-lo a partir do Windows rodando dentro do WinBoat. Para o usuário, isso elimina a necessidade de manter uma instalação separada de Windows só para atualizar firmware ou ajustar perfis de iluminação, por exemplo.
Antes do suporte nativo ao USB, alguns usuários recorriam à edição manual do arquivo docker-compose.yml localizado em ~/.winboat, adicionando mapeamentos de dispositivos USB diretamente à pilha de contêineres. Esse procedimento exigia desligar e subir novamente os serviços com docker-compose down e docker-compose up -d, além de ter de remover as alterações antes de atualizar para versões mais novas (como 0.8.0 ou superior), para evitar incompatibilidades.
Outro ponto interessante é que, a partir da versão 0.9.0, o WinBoat passou a suportar também o Podman como alternativa ao Docker. Isso é especialmente útil em ambientes em que o Docker não é a solução preferida ou em distribuições que empurram o Podman como contêiner engine padrão. No momento, o USB passthrough ainda não está disponível via Podman, mas o suporte está em desenvolvimento.
Em termos de distribuição do próprio WinBoat, há planos de empacotá-lo como Flatpak no futuro, o que facilitaria bastante a instalação em diversas distros. No entanto, os desenvolvedores chamam atenção para a complexidade dessa tarefa, já que o Flatpak é extremamente isolado e seria necessário expor a ele o binário do Docker/Podman, o socket de comunicação e outros utilitários essenciais para o funcionamento do projeto.
Por enquanto, o formato .deb continua sendo uma das formas mais práticas de instalação em sistemas baseados em Debian e Ubuntu, com outras opções de empacotamento disponíveis dependendo da distribuição e do ecossistema em que você se encontra.
Licenciamento, ativação do Windows e considerações de segurança
É importante esclarecer que o WinBoat não fornece licença de Windows nem faz qualquer tipo de ativação ilegal. As ISOs baixadas pelo aplicativo são imagens oficiais de avaliação disponibilizadas pela própria Microsoft, assim como as que você encontra no site da empresa para instalação manual. Cabe ao usuário fornecer uma chave de produto válida caso queira ativar e regularizar a instalação.
O próprio FAQ do projeto deixa claro que, após a instalação, o Windows permanece não ativado até que você insira seu serial. Em outras palavras, o WinBoat automatiza o processo técnico de baixar, preparar e rodar o sistema, mas não altera as regras de licenciamento da Microsoft.
No campo da segurança, é preciso ter atenção especial ao recurso de compartilhamento da pasta home. Embora extremamente prático, ele significa que qualquer malware que eventualmente infecte o Windows pode potencialmente acessar e comprometer arquivos do seu diretório pessoal no Linux, uma vez que este aparece como uma unidade de rede montada dentro do sistema convidado.
Uma mitigação possível é limitar o compartilhamento a subdiretórios específicos quando isso se tornar uma opção estável, ou manter backups regulares e boas práticas de segurança digital, evitando instalar softwares suspeitos ou baixar executáveis de origem duvidosa dentro do ambiente Windows em contêiner.
Do lado do WinBoat, o fato de o projeto ser open source e não incluir componentes proprietários no próprio código é um ponto positivo, já que permite auditoria e contribuições da comunidade para correções de bugs, melhorias de desempenho e reforço de segurança contínuos.
No fim das contas, o WinBoat tem se consolidado como uma das maneiras mais elegantes e amigáveis de rodar Windows dentro do Linux, oferecendo uma combinação de automação, integração e flexibilidade que poucos projetos alcançam hoje. Para quem quer abandonar de vez o dual boot, mas ainda precisa de alguns aplicativos do outro lado da cerca, ele pode ser a peça que faltava para fechar o quebra-cabeça.