Quando se fala em heróis da Marvel e jogos de luta, a memória logo viaja para os clássicos da Capcom. No entanto, Marvel Tōkon: Fighting Souls chega para provar que mudar a direção criativa pode ser a jogada mestre. Ao colocar o universo dos quadrinhos nas mãos da Arc System Works, a Sony e a Marvel entregaram um título que não tenta apenas copiar o passado, mas sim reinventar a forma como sentimos a pancadaria entre super-heróis, trazendo aquele estilo visual vibrante e exagerado típico de Guilty Gear e Dragon Ball FighterZ.
A proposta aqui é transformar cada luta em um verdadeiro espetáculo visual, onde a fluidez do anime encontra a dramaticidade dos gibis. Embora o jogo traga mecânicas que podem parecer assustadoras à primeira vista, ele consegue equilibrar a acessibilidade para novatos com uma profundidade tática que vai deixar qualquer veterano de fighting games grudado na tela. É uma obra ambiciosa que, apesar de alguns tropeços técnicos, consegue elevar o nível da representação de Marvel nos consoles e PC.
Um Multiverso Narrativo em Movimento
A trama gira em torno de uma ameaça cósmica: o Champion, um dos Anciãos do Universo, que viaja pelo cosmos destruindo planetas que não possuem guerreiros à altura de sua obsessão por combate. A Terra é o próximo alvo, e para evitar a aniquilação, a Promotora Xirena Awhina organiza o “Desafio do Campeão”. A história não é complexa, mas serve perfeitamente como pretexto para reunir heróis e vilões que normalmente não dividiriam o mesmo cenário.
O jogo divide sua campanha no Modo Episódios, focando em cinco equipes distintas: os Fighting Avengers (liderados por Steve Rogers e Tony Stark), os Unbreakable X-Men, os Amazing Guardians, os Samurai Outriders e os Knights of Doom. O grande trunfo aqui é a apresentação: a narrativa é contada através de motion comics, onde as páginas ganham vida com animações pontuais, as onomatopeias são integradas e a leitura segue o sentido dos mangás japoneses. Além disso, cada equipe conta com artistas diferentes, como Hiro Mashima, fazendo com que a experiência visual mude conforme avançamos nos capítulos.
A Arte da Guerra: Jogabilidade e Estratégia

Diferente de tudo o que vimos anteriormente, Marvel Tōkon aposta em combates 4 contra 4. Mas não se engane: você não controla os quatro ao mesmo tempo. A luta começa com o líder e um aliado; os outros dois integrantes são desbloqueados durante a batalha através de Rupturas (que jogam o oponente através de paredes para novas zonas do cenário) ou ao perder um round. Esse sistema cria uma escalada de intensidade, onde suas opções ofensivas aumentam conforme a luta progride.
Um ponto crucial é que toda a equipe compartilha uma única barra de vida. Isso torna a gestão de personagens fundamental. Você pode focar em um lutador principal e usar os outros apenas como suporte, ou alternar constantemente para explorar a Sinergia de Equipe. O sistema de Assemble Assist permite chamar colegas para prolongar combos, enquanto o Crossover serve para interceptar ataques rivais durante a guarda. Para quem quer o ápice do poder, existe o Tōkon Assemble, um golpe devastador e cinematográfico reservado para momentos críticos da luta.
Acessibilidade vs. Profundidade

Para não espantar quem nunca jogou um fighting game, a Arc System Works implementou os Link Attacks, que são autocombos simplificados onde apertar repetidamente um botão gera sequências vistosas. No entanto, o jogo recompensa quem domina a entrada tradicional (Motion), oferecendo mais dano e carregamento de barra mais rápido. Essa filosofia de “fácil de jogar, difícil de dominar” é o que mantém o título interessante, já que a diferença entre um jogador casual e um competitivo reside na gestão dos recursos e na composição tática do time.
- Spider-Man e Ms. Marvel: Focam em mobilidade extrema e controle aéreo.
- Hulk e Wolverine: Oferecem pressão bruta, força e resistência.
- Doctor Doom e Magneto: Dominam o combate à distância com projéteis e magia.
- Magik e Ghost Rider: Utilizam portais e correntes para surpreender o rival.
Espetáculo Sensorial e Performance Técnica
Visualmente, o jogo é impecável. O uso do Unreal Engine 5 aliado à animação 3D com aparência 2D cria um efeito hipnotizante. Elementos como pontos de Ben-Day (típicos de impressões de gibis antigos) aparecem durante os golpes especiais, e a banda sonora, com destaque para o opening “Stronger as One”, mistura heavy metal e orquestras épicas. Os cenários, como Wakanda e a Mansão X, são ricos em detalhes e interativos, deixando de ser apenas fundos para se tornarem parte da coreografia da luta.
Contudo, a experiência técnica é um conto de duas cidades. No PlayStation 5, o jogo roda como um sonho, com 4K estável, 60 FPS e um Rollback Netcode que torna as lutas online quase instantâneas. Já a versão de PC tem sido motivo de frustração para muitos, apresentando stuttering, quedas de frames e input lag. Problemas relacionados ao consumo de CPU e a obrigatoriedade de vincular a conta da PSN para o online tornaram a recepção no Steam bastante mista, exigindo que a desenvolvedora lance patches urgentes para estabilizar o port.
Conteúdo Extra e Modos de Jogo
Além do modo história, o título oferece a All-Star Arena, que mistura elementos de arcade com progressão, e o modo Survival, onde o jogador enfrenta sucessivos oponentes com mecânicas que lembram levemente roguelites. Outro destaque é o Arcadia Rumble, um modo mais descontraído onde avatares exploram um lobby para coletar power-ups antes de partirem para a briga, transformando o jogo quase em uma experiência de festa.
O elenco inicial de 21 personagens (incluindo o Champion desbloqueável) é variado, embora alguns considerem pequeno para um jogo de equipes. A promessa de DLCs com novos lutadores e cenários indica que o jogo continuará crescendo. A integração de vozes famosas e o suporte a diversos idiomas, incluindo a dublagem latina e espanhola, mostram que a Sony quis dar um alcance global à obra.
Marvel Tōkon: Fighting Souls é a prova de que a fusão entre o design japonês e a cultura pop americana pode gerar algo magnífico, entregando um gameplay profundo envolto em uma embalagem visualmente deslumbrante. Embora a performance no computador ainda precise de ajustes sérios para não afastar a comunidade, a base do jogo é sólida e emocionante, conseguindo agradar tanto quem quer apenas apertar botões e ver explosões na tela quanto quem busca a perfeição técnica dos combos e a estratégia de montagem de times.

